EDIÇÃO 001Poder · Peça complexa
Senado aprova fim da 6x1: Bittar falta à votação, chama PEC de 'oportunismo' e defende escala para o comércio
Parlamentar do Acre com rendimento de R$ 44 mil critica redução de jornada para trabalhadores que ganham piso comercial no estado; dados apontam 68,4% do comércio rio-branquense sob regime de seis dias.
Edição 001 · Redação ★ ATA · 16/10/2026 · 6 min de leitura

A aprovação em dois turnos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a jornada na escala 6 por 1 no Senado Federal, na noite da última quarta-feira (14), expôs uma divergência nítida entre o discurso público para as redes sociais e o exercício do voto formal no plenário legislativo.
Enquanto 58 senadores votaram a favor da garantia de dois a três dias de repouso semanal e 14 votaram contra, o senador Márcio Bittar (PL-AC) não registrou presença no painel eletrônico em nenhuma das duas votações. No dia seguinte, no entanto, concedeu entrevista ao podcast Papo Informal disparando duras críticas ao texto aprovado, classificando a redução da escala laboral como "oportunismo barato" e acusando o governo federal de tentar "comprar a eleição".
1. Ausência no plenário, palanque fora dele
De acordo com as atas das 142ª e 143ª Sessões Deliberativas Extraordinárias do Senado, Bittar não participou da votação que alterou o art. 7º, inciso XIII, da Constituição Federal. No painel taquigráfico, seu nome consta na relação de ausências justificadas por compromissos políticos externos.
Nos bastidores da bancada de oposição, a manobra foi calculada: diante da alta popularidade da proposta entre os trabalhadores da base e a mobilização massiva dos comerciários nas capitais, parlamentares alinhados à pauta patronal optaram pela ausência para evitar o desgaste de registrar um voto "NÃO" no painel em pleno ano eleitoral.
Paralelamente, Bittar coassinou o requerimento da PEC 12/2026, proposta alternativa da ala conservadora que buscava autorizar a redução proporcional de salários como contrapartida à redução de carga horária — dispositivo rechaçado pelo plenário.
2. O abismo dos números: R$ 44 mil vs. R$ 1.620
A justificativa de Bittar de que a iniciativa "vai prejudicar as pequenas e médias empresas brasileiras, acertando em cheio o setor de Serviços" contrasta com o perfil econômico do estado que o elegeu.
Segundo dados tabulados pela ATA Acre a partir do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), 68,4% dos trabalhadores formais do comércio varejista e atacadista de Rio Branco e Cruzeiro do Sul cumprem jornada semanal de 44 horas na escala 6x1, com apenas uma folga semanal — frequentemente em dias de semana alternados. O salário médio de admissão no setor em 2026 é de R$ 1.620,00.
Por outro lado, os dados de transparência do Senado Federal registram que Márcio Bittar recebe:
- Subsídio bruto mensalR$ 44.008,52 (o equivalente a 27 vezes o salário médio de um operador de supermercado em Rio Branco);
- Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAPS)média de R$ 38.000,00 mensais para passagens aéreas, combustível e consultorias;
- Jornada parlamentardeliberações de plenário concentradas de terça a quinta-feira em Brasília.
3. A contradição da "responsabilidade técnica"
Durante a entrevista, o senador declarou: > "Está na cara que o PT não está preocupado com os efeitos disso, de estudar, de escutar os pequenos empresários. O tema da 6 por 1 para passar para 4 por 3 precisa de estudo técnico e financeiro. Como eles estão anunciando agora que vão pagar a dívida do microempreendedor, quer dizer, o cara está anunciando uma coisa que nem pode anunciar."
O apelo ao rigor técnico e ao planejamento orçamentário colide diretamente com o histórico legislativo do próprio senador. Bittar foi o relator-geral do Orçamento da União de 2021 (PLN 28/2020) e o principal operador da criação das emendas de relator (RP9) — mecanismo que ficou conhecido nacionalmente como "Orçamento Secreto". Na ocasião, o senador inflou dotações orçamentárias em mais de R$ 30 bilhões sem demonstrativo de impacto financeiro, critérios técnicos de rateio ou plano de sustentabilidade fiscal.
4. Ataques à comunidade acadêmica da Ufac
As manifestações de Bittar contra a redução da carga de trabalho foram precedidas, na mesma semana, por ataques proferidos contra professores e pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac). Em ato público com megafone em frente a estabelecimentos comerciais do centro de Rio Branco, o senador dirigiu ofensas generalizadas à instituição: > "Nós estamos aqui trabalhando enquanto o pessoal da Ufac fica fazendo bagunça. É um bando de vagabundo que não sabe o que é produzir riqueza."
A fala gerou nota de repúdio imediata da Associação dos Docentes da Ufac (Adufac) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que lembraram que a instituição responde por mais de 70% da produção científica e dos serviços de extensão comunitária no estado, além de funcionar em horário integral com alunos trabalhadores que conciliam a faculdade com escalas extenuantes de trabalho.
Pressionado pela repercussão negativa, Bittar divulgou em suas redes sociais um vídeo de retratação parcial: > "Gente, exagerei... Óbvio que na Ufac não tem só vagabundo. Tem gente de bem lá também. Mas quem fica defendendo comunismo e destruição da iniciativa privada continua sendo."
5. Documentos em conferência
A ATA Acre mantém à disposição da sociedade os links para o espelho de votação no Senado e as notas metodológicas:
- As votações da PEC 6x1 constam no Sistema de Apoio ao Processo Legislativo do Senado Federal;
- Os demonstrativos de remuneração de todos os três senadores acreanos estão disponíveis no portal de transparência institucional;
- O espaço editorial da ATA permanece aberto caso a assessoria do senador deseje encaminhar manifestação fundamentada com documentos ou notas técnicas.
Escala 0x7 no Senado
Discurso na rua sobre trabalho versus cadeira vazia na votação da PEC 6x1

Ver Roteiro & Falas dos Personagens (Opcional)+ Ler diálogos
[Grita ao megafone em ato público sob sol forte.]
«Pessoal da Ufac é tudo vagabundo! Nós é que estamos aqui trabalhando!»
Político esbraveja no megafone acusando estudantes e afirmando que está trabalhando.
[Sessão de votação da PEC 6x1; cadeira vazia com teias de aranha e placa de ausência.]
«Votação da PEC 6x1: Senador Márcio Bittar ausente no 1º e no 2º turno.»
Poltrona parlamentar vazia coberta por teias de aranha durante votação decisiva.
[No ponto de ônibus sob calor de 38°C, segurando livros de Direito e História.]
«Difícil competir com a escala 0x7 da família Bittar no Senado...»
Estudante cansado no ponto de ônibus ironiza a rotina de trabalho parlamentar.
Verificação · Disputa de versões
O discurso de defesa dos pequenos empresários versus a ausência do parlamentar no plenário e o abismo entre o salário parlamentar e a jornada real dos trabalhadores.
O senador votou contra a proposta para proteger as pequenas e médias empresas do setor de serviços.
Publicado por: Assessoria parlamentar e veículos regionais
Falso / desmentido
Registros taquigráficos e painel do Senado comprovam que o senador esteve AUSENTE nos dois turnos de votação, abstendo-se de registrar voto formal em plenário.
A redução da jornada para a escala 4x3 ou 5x2 quebra o comércio local sem estudos prévios.
Publicado por: Márcio Bittar em podcast
Em aberto
Estudos do Dieese e da OIT mostram aumento de produtividade e redução de sinistralidade laboral; entidades patronais alegam aumento imediato de folha de 12% a 18%.